2 de abr. de 2012

esboço do texto final


Embora Man Ray seja constantemente lembrado por suas fotografias surrealistas, todo o conjunto de suas fotografias pode ser dividido em documental e experimental. Alguns dos retratos que Ray fez dos artistas, escritores e filósofos que faziam parte do seu ciclo social são essencialmente documentais e simples, [tiradas bem de perto]. Já os seus retratos mais emblemáticos incluem experimentações com luz e sombra, texturas, posicionamento e têm um caráter intensamente surrealista, como o Violoncelo e a [__]. A raiografia, procedimento/técnica idealizado por ele, é também bem abstrata e se encaixa no experimental, assim como outra técnica criada por ele, a solarização.
            Em "Arte como procedimento", Chklovski fala sobre o estranhamento na arte e a sua importância, tanto para a própria arte quanto para a vida cotidiana. O objeto que parece fora de lugar e de contexto, que não é usual, causa estranhamento naquele que observa e consequentemente uma pausa, uma observação demorada, na tentativa de absorver aquilo que está enchergando. Esse é o tipo de momento que acaba forçando um observador que talvez estivesse apenas fazendo ações automáticas a parar e olhar, contemplar, questionar e assim perceber o mundo que o cerca, como quem observa, e não apenas como quem passa. Uma obra de arte deve trazer esse tipo de situação, ficar frente a frente com o destoante, para que possa haver um estranhamento e assim uma ruptura, como é o caso da Fonte, de Marcel Duchamp.
            O estranhamento, o choque e o questionamento para querer entender porque esse objeto está em determinado lugar, está presente nas fotografias experimentais de Man Ray. Em O Violoncelo, as costas de Kiki de Montparnasse ganham dois efes (recortes simétricos, no formado da letra F, feitos no tampo deste instrumento) estampados em suas costas. O observador sabe o que é próprio do corpo da mulher e o que é próprio do violoncelo, e pela primeira vez se depara com uma mescla de características - não é só mais uma fotografia de uma mulher comum de costas. O mesmo acontece com [a mulher que chora lágrimas que parecem de vidro ou de plástico] - a lágrima, que é líquida, ganha características que não são suas, ela está congelada, suspensa no tempo, e uma imagem como essa é intrigante e precisa de um tempo de observação para ser absorvida, não é uma cena usual.
            Em "O Momento Decisivo", Henri Cartier-Bresson fala sobre a sensibilidade e a atenção que o fotógrafo deve ter para se posicionar de modo a captar tudo o que é essencial para registrar um momento, de modo que o significado deste seja representado da maneira mais fiel possível. Esse momento registrado é único e inédito e fotografa-lo é uma missão que deixa o fotógrafo a mercê do mundo e de como ele acontece. Bresson diz que a fotografia posada não tem os mesmos valores de espontaneidade e naturalidade, afinal o retratado muitas vezes escolhe como quer que seja a sua aparência, escondendo verdadeiros traços de sua personalidade.
            Embora os retratos de Man Ray sejam em sua grande maioria posados, aqueles que não têm elementos experimentais acabam tendo um caráter bem natural pelo menos em sua aparência, talvez porque fotógrafo e o fotografado têm uma relação de amizade e a fotografia não tem nenhuma intenção definida, a situação é de descontração, e não de criar uma imagem para a posteridade, como acontecia com os retratos de família típicos do período de início da fotografia, com o grande patriarca sempre muito grandioso e imponente. O caráter da fotografia, mesmo que posada, acaba sendo determinado pelas intenções tanto do fotógrafo quanto do fotografado. Nesse caso, não há pretensão nenhuma.
            O momento decisivo, como caracterizado por Bresson, não faz parte da carreira fotográfica de Man Ray, afinal suas prioridades eram a experimentação sem limites e não a documentação de um momento preciso e vital. O momento importante, para Ray, era aquele em que a cena a ser fotografada tinha a aparência que ele desejava registrar.
             Em "A fotografia documental no limiar da experiência moderna", Lissovsky discute como o tempo presente é apresentado na imagem e apresenta a posição de alguns artistas em relação a este tempo. Alguns fotógrafos tentam se posicionar antes do acontecimento, quando ele está prestes a acontecer, outros posteriormente. Já que Man Ray trabalha com fotos posadas, o momento registrado é sempre o momento presente. Em seus trabalhos, ele não apresenta nenhuma preocupação em criar alguma ilusão temporal, afinal as ilusões que ele visa criar são apenas relativas a imagem.
            Em "Realismo sujo e experiência autobiográfica", a autora discute a relação que alguns artistas têm com sua vida pessoal ao expô-las, de maneira mais aberta ou  mais discreta, em seus trabalhos. Um dos artistas citados é a fotógrafa Nan Goldin, que usa da fotografia não só como seu ofício mas também como uma maneira de registrar sua vida pessoal, marcar momentos. Man Ray também fazia registros de seus amigos, mas este tipo de fotografia não era o foco de seu trabalho. Por mais que, mesmo em suas fotografias surrealistas, alguns dos modelos sejam seus amigos, neste momento eles estão posando, sendo alguém que a fotografia pede, e não quem são em tempo integral. Mesmo as fotografias mais despretensiosas e documentais não tem tanto um ar autobiográfico, de registro de amigos fazendo coisas que fazem sempre, pois todos são fotografados, se não em estúdio, sempre em frente a um fundo, parados, posando - é um recorte no dia-a-dia, não uma tentativa de fotografa-lo enquanto ele acontece, como é o caso de Nan Goldin.

21 de mar. de 2012

biografia breve

Man Ray nasceu em 1890, naFiladélfia, Estados Unidos, cresceu no Brooklyn, mudou-se para Nova Iorque eteve o momento mais simbólico de sua carreira fotográfica em Paris. Afotografia é o campo artístico no qual mais se destacou, mas ele tambémproduziu desenhos, pinturas, ensaios e dirigiu alguns curtas-metragens. Suaprimeira exposição individual aconteceu em 1915, com pinturas e desenhos, e oprimeiro registro de algum encaminhamento rumo ao dadaísmo é a assemblage Self Portrait, exposta no anoseguinte. Aprendeu o básico da fotografia com Alfred Stieglitz, um dosresponsáveis pelo reconhecimento da fotografia como forma de arte, e a partirdesse momento seguiu experimentando, desenvolvendo técnicas próprias, como asolarização (explicar) e a raiografia, que consiste em posicionar sobre umpapel fotográfico um objeto, ou vários objetos, e expor à luz, formando“desenhos”, abstratos ou figurativos. Man Ray compilou algumas raiografias nolivro The Delightful Fields.


MarcelDuchamp, além de ser um bom amigo e colaborador, também foi uma grandeinspiração para Man Ray. Juntos, tentaram trazer um pouco do experimentalismovigente na arte européia para os Estados Unidos e uma ilustração dessatentativa é o dadaísmo, movimento que tem como mote criar uma arte tão absurdaque confundiria o senso de realidade do expectador. No entanto, a iniciativanão prosperou – segundo Man Ray, “Dadá não pode viver em Nova Iorque. NovaIorque por inteiro é dadá e não vai tolerar um rival”. Em 1921, separou-se desua mulher e mudou-se para Paris junto com Duchamp, que acabou por integra-lo àefervescente cena artística parisiense, da qual acabou por se tornar ofotógrafo não-formal. Man Ray viveu em Montparnasse, bairro/região onde seconcentrava toda essa efervescência. Passaram por suas lentes escritores,filósofos e artistas.