Embora
Man Ray seja constantemente lembrado por suas fotografias surrealistas, todo o
conjunto de suas fotografias pode ser dividido em documental e experimental.
Alguns dos retratos que Ray fez dos artistas, escritores e filósofos que faziam
parte do seu ciclo social são essencialmente documentais e simples, [tiradas
bem de perto]. Já os seus retratos mais emblemáticos incluem experimentações
com luz e sombra, texturas, posicionamento e têm um caráter intensamente
surrealista, como o Violoncelo e a [__]. A raiografia, procedimento/técnica
idealizado por ele, é também bem abstrata e se encaixa no experimental, assim
como outra técnica criada por ele, a solarização.
Em "Arte como procedimento", Chklovski fala sobre o estranhamento na arte e a sua importância, tanto para a própria arte quanto para a vida cotidiana. O objeto que parece fora de lugar e de contexto, que não é usual, causa estranhamento naquele que observa e consequentemente uma pausa, uma observação demorada, na tentativa de absorver aquilo que está enchergando. Esse é o tipo de momento que acaba forçando um observador que talvez estivesse apenas fazendo ações automáticas a parar e olhar, contemplar, questionar e assim perceber o mundo que o cerca, como quem observa, e não apenas como quem passa. Uma obra de arte deve trazer esse tipo de situação, ficar frente a frente com o destoante, para que possa haver um estranhamento e assim uma ruptura, como é o caso da Fonte, de Marcel Duchamp.
O estranhamento, o choque e o questionamento para querer entender porque esse objeto está em determinado lugar, está presente nas fotografias experimentais de Man Ray. Em O Violoncelo, as costas de Kiki de Montparnasse ganham dois efes (recortes simétricos, no formado da letra F, feitos no tampo deste instrumento) estampados em suas costas. O observador sabe o que é próprio do corpo da mulher e o que é próprio do violoncelo, e pela primeira vez se depara com uma mescla de características - não é só mais uma fotografia de uma mulher comum de costas. O mesmo acontece com [a mulher que chora lágrimas que parecem de vidro ou de plástico] - a lágrima, que é líquida, ganha características que não são suas, ela está congelada, suspensa no tempo, e uma imagem como essa é intrigante e precisa de um tempo de observação para ser absorvida, não é uma cena usual.
Em "Arte como procedimento", Chklovski fala sobre o estranhamento na arte e a sua importância, tanto para a própria arte quanto para a vida cotidiana. O objeto que parece fora de lugar e de contexto, que não é usual, causa estranhamento naquele que observa e consequentemente uma pausa, uma observação demorada, na tentativa de absorver aquilo que está enchergando. Esse é o tipo de momento que acaba forçando um observador que talvez estivesse apenas fazendo ações automáticas a parar e olhar, contemplar, questionar e assim perceber o mundo que o cerca, como quem observa, e não apenas como quem passa. Uma obra de arte deve trazer esse tipo de situação, ficar frente a frente com o destoante, para que possa haver um estranhamento e assim uma ruptura, como é o caso da Fonte, de Marcel Duchamp.
O estranhamento, o choque e o questionamento para querer entender porque esse objeto está em determinado lugar, está presente nas fotografias experimentais de Man Ray. Em O Violoncelo, as costas de Kiki de Montparnasse ganham dois efes (recortes simétricos, no formado da letra F, feitos no tampo deste instrumento) estampados em suas costas. O observador sabe o que é próprio do corpo da mulher e o que é próprio do violoncelo, e pela primeira vez se depara com uma mescla de características - não é só mais uma fotografia de uma mulher comum de costas. O mesmo acontece com [a mulher que chora lágrimas que parecem de vidro ou de plástico] - a lágrima, que é líquida, ganha características que não são suas, ela está congelada, suspensa no tempo, e uma imagem como essa é intrigante e precisa de um tempo de observação para ser absorvida, não é uma cena usual.
Em "O Momento Decisivo",
Henri Cartier-Bresson fala sobre a sensibilidade e a atenção que o fotógrafo
deve ter para se posicionar de modo a captar tudo o que é essencial para
registrar um momento, de modo que o significado deste seja representado da
maneira mais fiel possível. Esse momento registrado é único e inédito e fotografa-lo
é uma missão que deixa o fotógrafo a mercê do mundo e de como ele acontece.
Bresson diz que a fotografia posada não tem os mesmos valores de espontaneidade
e naturalidade, afinal o retratado muitas vezes escolhe como quer que seja a
sua aparência, escondendo verdadeiros traços de sua personalidade.
Embora os retratos de Man Ray sejam
em sua grande maioria posados, aqueles que não têm elementos experimentais
acabam tendo um caráter bem natural pelo menos em sua aparência, talvez porque
fotógrafo e o fotografado têm uma relação de amizade e a fotografia não tem
nenhuma intenção definida, a situação é de descontração, e não de criar uma
imagem para a posteridade, como acontecia com os retratos de família típicos do
período de início da fotografia, com o grande patriarca sempre muito grandioso
e imponente. O caráter da fotografia, mesmo que posada, acaba sendo determinado
pelas intenções tanto do fotógrafo quanto do fotografado. Nesse caso, não há
pretensão nenhuma.
O momento decisivo, como caracterizado por Bresson, não faz parte da carreira fotográfica de Man Ray, afinal suas prioridades eram a experimentação sem limites e não a documentação de um momento preciso e vital. O momento importante, para Ray, era aquele em que a cena a ser fotografada tinha a aparência que ele desejava registrar.
O momento decisivo, como caracterizado por Bresson, não faz parte da carreira fotográfica de Man Ray, afinal suas prioridades eram a experimentação sem limites e não a documentação de um momento preciso e vital. O momento importante, para Ray, era aquele em que a cena a ser fotografada tinha a aparência que ele desejava registrar.
Em "A fotografia documental no limiar da
experiência moderna", Lissovsky discute como o tempo presente é
apresentado na imagem e apresenta a posição de alguns artistas em relação a
este tempo. Alguns fotógrafos tentam se posicionar antes do acontecimento,
quando ele está prestes a acontecer, outros posteriormente. Já que Man Ray
trabalha com fotos posadas, o momento registrado é sempre o momento presente.
Em seus trabalhos, ele não apresenta nenhuma preocupação em criar alguma ilusão
temporal, afinal as ilusões que ele visa criar são apenas relativas a imagem.
Em "Realismo sujo e experiência
autobiográfica", a autora discute a relação que alguns artistas têm com
sua vida pessoal ao expô-las, de maneira mais aberta ou mais discreta, em seus trabalhos. Um dos
artistas citados é a fotógrafa Nan Goldin, que usa da fotografia não só como
seu ofício mas também como uma maneira de registrar sua vida pessoal, marcar
momentos. Man Ray também fazia registros de seus amigos, mas este tipo de
fotografia não era o foco de seu trabalho. Por mais que, mesmo em suas
fotografias surrealistas, alguns dos modelos sejam seus amigos, neste momento
eles estão posando, sendo alguém que a fotografia pede, e não quem são em tempo
integral. Mesmo as fotografias mais despretensiosas e documentais não tem tanto
um ar autobiográfico, de registro de amigos fazendo coisas que fazem sempre,
pois todos são fotografados, se não em estúdio, sempre em frente a um fundo,
parados, posando - é um recorte no dia-a-dia, não uma tentativa de fotografa-lo
enquanto ele acontece, como é o caso de Nan Goldin.



































